segunda-feira, 29 de junho de 2026
Um cérebro antigo
Como mudar em um minuto hábitos arraigados há 300 mil anos? Por mais inesperada que seja essa resposta, sim, é possível!! Mas a pergunta que reina soberana é como convencer essa espécie dotada de consciência. Toda a história da sobrevivência humana na Terra foi em torno da obtenção de alimentos, abrigo e segurança. Os caçadores coletores que vagaram por 300 mil anos comiam os vegetais que encontravam pelo caminho, ou os animais que conseguiam caçar.
Somente “ontem”, ou há cerca de 12 mil anos é que o cultivo do trigo, do milho, assim como a criação de porcos, galinhas, bois, ovelhas, fixaram os humanos à terra, aumentando a previsibidade de termos o que comer, ainda que condições climáticas pusessem em risco principalmente o cultivo de vegetais, mais trabalhosos de produzir e estocar.
A caça sempre foi um fator de integração social, de estabelecimento de hierarquias, de conquista de status. Diante do fogo, assar o resultado da caça sempre representou a celebração da sobrevivência e confraternização social. E, tão importante quanto o social, lembremo-nos que era necessário consumir de uma vez o máximo de calorias e nutrientes, pois não se sabia quando seria a próxima refeição.
Hoje, em pleno século XXI, à beira de um colapso ambiental com a degradação da qualidade das águas, dos solos, do ar, do clima, da vida nos oceanos, a maior parte da população que é responsável por essa degradação tem à sua disposição uma variedade inédita de alimentos disponíveis, mas continuamos a nos alimentar como se não soubéssemos quando iremos comer novamente.
A internet surgiu em nossas vidas há pouco mais de 30 anos e parecia que, finalmente, as informações poderiam ser compartilhadas para nossa sobrevivência, tal qual as reuniões diante da fogueira há 300.000 anos possibilitavam que fossem compartilhadas experiências, informações, pontos de vista, tudo que nos diferencia, através da linguagem, de outros animais, que nos possibilitou vencer os perigos que que antes nos atormentavam.
Hoje, já acabamos com a vida selvagem na Terra, com muita rapidez e eficiência, substituindo-a por uma quantidade pornográfica de animais “produzidos” e mortos todos os anos, como os 75 bilhões de frangos e galinhas que só têm o direito de viver 40 dias neste planeta. 300 milhões de bois mortos por ano. 1,5 bilhão de porcos mortos entre 5 e 7 meses de vida nas prisões em que são criados! 600 milhões de ovinos e cordeiros ficam no planeta entre 6 meses e um ano. Quanto mais novo, seja a vitela, o leitão ou o borrego, melhor a “qualidade” da sua carne. Uma bizarra ligação entre comer crianças e se deliciar com a “maciez” de sua carne!! É tão “chique” comer carne, que as varandas gourmet estão nos espaços mais privilegiados!!
Estatísticas não comovem! Mesmo diante dessa certeza, é bom saber que a quantidade de terra usada para produção de animais equivale ao tamanho de toda a África, considerando pastos e produção de ração, o que leva à degradação rápida de todos os ecossistemas, seja o consumo e poluição da água, o uso de fertilizantes, o uso de venenos, sendo fontes de gases do efeito estufa e toda a sorte de degradação que pode ser consultada amplamente em fontes oficiais.
Qualquer possibilidade de sinapse no cérebro, diante de um cenário tão dramático, faz-nos perceber que algo não vai bem por aqui. E que os perigos que enfrentávamos com nossa união e troca de ideias em torno da fogueira, hoje são outros. Não é à toa que são realizadas cúpulas mundiais para discutir o meio ambiente. Só que terminam com um belo bife no prato, certo? Sim, é isso e a desculpa é sempre de que precisamos comer “proteínas” (como sinônimo de carne) para viver.
Mesmo diante de uma disponibilidade de alimentos que nunca tivemos na nossa história (apesar de ainda haver fome em regiões mais desfavorecidas), globalmente, as pessoas morrem precocemente mais em consequência de uma alimentação inadequada, que leva à obesidade e outras doenças, do que pela falta de alimentos. Não é à toa que há previsão de um deficit de enfermeiros necessários na área da saúde em 30 anos. Não se dá mais conta de tratar tantas doenças!!!
Temos quase o dobro da expectativa de vida que tínhamos há 100 anos, devido ao saneamento, à vacinação, aos antibióticos, ao controle da mortalidade infantil, mas vivemos os últimos anos de nossas vidas com muito menos qualidade de vida do que seria possível. Não se leva em conta que as proteínas estão em todos os alimentos e que uma alimentação colorida, variada, equilibrada, é muito mais eficaz para a saúde do que qualquer dieta “onívora”.
Hoje, os valentes carnívoros compram pedaços de corpos de animais que tiveram uma vida miserável confinados a espaços minúsculos, alimentados com rações cheias de antibióticos, bioacumulando em suas carnes todo o tipo de pesticidas, em prateleiras de supermercados. Afinal, toda a área médica determina que precisamos de proteínas como sinônimo de cadáveres de animais, certo?
Colocamos o aumento da esperança de vida na ciência, esperando que inventem novas drogas e ignoramos solenemente que já está mais que comprovado que a longevidade está ligada a hábitos de vida, como alimentação, sono, atividade física e controle do estresse, sendo que uma alimentação 100% à base de vegetais e alimentos integrais é a dieta que mais resultados positivos apresenta, tanto na prevenção quanto na cura de 90% das doenças consideradas “normais” após os 40 anos.
Quanto vemos artigos dos mais conceituados cientistas, lemos frases como “o crucial para o nosso futuro é encontrar formas de alimentar um mundo em crescimento”. Ora, senhoras e senhores, essa forma está mais que encontrada, gasta um décimo dos recursos (água, terra e energia) em relação aos produtos de origem animal, previne e cura doenças, economiza dinheiro público gasto com sistemas de saúde, envenena muito menos nosso meio ambiente e nos dá alguma chance de sobrevivência humana no planeta Terra, além de parar de explorar e matar entre 1 e 2,7 trilhões de peixes por ano e 80 bilhões de animais terrestres.
Ainda que haja um grande desencontro entre nosso cérebro antigo e as condições materiais contemporâneas, será que não conseguiríamos fazer nossa parte para evitar o fim do mundo? Acredito que sim. É possível, de uma só vez, usando de nossa capacidade de entender passado, presente e futuro, mudarmos nossos hábitos. Aquela reunião em torno da fogueira de 300 mil anos atrás poderia ser feita com alimentos sustentáveis, saudáveis e saborosos, sem grande esforço! Nós, humanos, temos a capacidade de entender nossa responsabilidade e temos ferramentas para entender dados e nossa realidade. Será que temos o direito de continuar a caminhar cegamente em direção à catástrofe sem tomar uma única decisão individual, três vezes ao dia, que está absolutamente sob nosso controle??? Alguém pode acender uma fogueira por aí para falarmos francamente sobre nosso futuro??
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